Pequenos produtores brasileiros já podem contar com um sistema de
produção próprio para ora-pro-nóbis, que traz facilidade nos tratos culturais e
permite uma colheita escalonada ao longo do tempo. A proposta do sistema é
fazer o plantio adensado – para garantir maior produtividade por área – e
programar colheitas sucessivas para manter controlada a arquitetura da planta e
evitar emaranhados de galhos e espinhos. Os experimentos foram conduzidos nos
campos da Embrapa Hortaliças, em Brasília (DF).
Com o crescente interesse dos consumidores pela hortaliça, e também por
sua aparição em cardápios de restaurantes de alta gastronomia do eixo Rio-São
Paulo, surgiu um nicho de mercado e, para viabilizar a oferta do produto, foi
validado o sistema de plantio adensado – até cinco mil plantas por hectare –
com colheitas sucessivas que permite a condução dessa espécie de forma mais
simples e eficaz pelo produtor rural. O espaçamento praticado anteriormente
resultava em cerca de 1.250 plantas por hectare. Outra vantagem do novo sistema
é que ele dispensa a necessidade de tutoramento da planta para colheita das
folhas, já que prevê a poda de hastes.
“A ora-pro-nóbis é muito rústica e com bom potencial produtivo, que se
apresenta como uma opção de diversificação de renda e de cultivo especialmente
para o agricultor familiar, já que a produção em larga escala é dificultada
pelas próprias características da planta, que exige intensa mão de obra”,
sugere o pesquisador Nuno Madeira.
Por ser uma planta da família dos cactos, a ora-pro-nóbis cresce como um
arbusto, com espinhos agudos distribuídos ao longo dos caules e ramos, o que
dificulta o manuseio pelos agricultores. “No geral, os produtores não
consideram estabelecer lavouras de ora-pro-nóbis pela dificuldade de lidar com
a planta espinhosa”, contextualiza o pesquisador, ao comentar que a planta,
apesar de muito nutritiva, costuma ser utilizada somente como cerca-viva ou, em
regiões específicas, como ingrediente de receitas tradicionais em cidades
históricas de Minas Gerais, como Diamantina, Tiradentes e Sabará.
Também conhecida por lobrobó ou pereskia, a ora-pro-nóbis é considerada
uma planta alimentícia não convencional (PANC) e apresenta um relevante teor de
proteína – trata-se de um alimento de origem vegetal com cerca de três gramas
de proteína a cada 100 gramas de folhas. “Embora esse valor seja equivalente em
outras hortaliças como rúcula e agrião e também em folhas de coloração
verde-escura, a qualidade da proteína da ora-pro-nóbis é melhor porque
apresenta mais complexidade e aminoácidos essenciais, ou seja, tem maior valor
biológico para o organismo porque contém aminoácidos essenciais em quantidade e
proporções adequadas”, explica a pesquisadora Neide Botrel.
Colheitas sucessivas
A ora-pro-nóbis pode atingir até quatro metros de altura, por isso, as
colheitas sucessivas, a cada seis ou dez semanas, dependendo das condições
climáticas, funcionam como podas que, além de facilitar o manejo da planta
espinhosa e garantir ergonomia para o produtor, estimulam o desenvolvimento
vegetativo e a produção comercial de folhas.
Segundo cálculos feitos nos experimentos, a produção pode atingir até
dois quilos de folhas por planta a cada corte, com quatro a oito cortes anuais
– o que equivale de 20 a 40 toneladas por hectare ao ano. Madeira destaca que a
planta pode se manter produtiva por até dez anos, mesmo com pressão por alta
produtividade, desde que sejam feitas adubações periódicas com matéria
orgânica.
Além da parte agronômica, a pesquisa também obteve resultados na área de
pós-colheita, com testes que indicaram a condição ideal para prolongar a vida
útil das folhas de ora-pro-nóbis. De acordo com Neide, quando embaladas em
bandejas de isopor com filme de plástico e armazenadas à temperatura de 10ºC,
as folhas mantêm a qualidade por até 15 dias.
Matéria-prima para a indústria alimentícia
Se reside em Minas Gerais toda a tradição da receita de frango ensopado com as
folhas suculentas de ora-pro-nóbis, nos demais estados do Brasil essa hortaliça
ainda é pouco explorada na agricultura e na culinária, seja na forma fresca ou
processada. Contudo, uma parceria firmada entre a Embrapa Hortaliças e a
empresa Proteios, da área de nutrição funcional, pretende mudar esse cenário.
A partir do sistema de produção validado pela pesquisa, agricultores
familiares da região do Município de Palmeira, distante 80 km de Curitiba,
capital do Paraná, iniciaram o cultivo da hortaliça para oferecer à empresa,
que fabrica um produto denominado Complemento Nutricional Funcional (CNF), uma
proteína vegetal em pó composta basicamente por folhas de ora-pro-nóbis. Esse
produto é uma espécie de farinha utilizada para enriquecer bebidas e alimentos
como pães, massas e barras de cereais. O destaque da composição nutricional é a
elevada concentração de proteína, que gira em torno de 28% da matéria seca.
“O trabalho tem apresentado bons resultados porque a produção está
integrada com a indústria e próxima da fábrica processadora”, comenta Madeira.
Ele destaca que, atualmente, há cerca de 50 produtores iniciando a colheita em,
pelo menos, oito municípios do Paraná e Santa Catarina. “O maior desafio é
ganhar escala para suprir a demanda da indústria, mas há potencial para
alcançarmos até 400 produtores, sendo um hectare por família com a ora-pro-nóbis
entrando como alternativa de diversificação de renda, mas também como garantia
de segurança alimentar”, analisa.
A grande maioria desses produtores cultiva fumo e, além do histórico de
vender para a indústria em sistema de produção contratada, eles também possuem
experiência com o processo de secagem das folhas em estufas para desidratação.
No sistema de produção validado pela Embrapa, a projeção de rendimento é de até
R$ 3 mil mensais por hectare cultivado, no caso da folha verde. Na proporção,
oito quilos de folhas verdes rendem um quilo de folhas desidratadas. Nesse
caso, investir em equipamentos de secagem é vantajoso porque a empresa paga até
R$ 18 por quilo de folha seca, enquanto a folha verde rende somente 8% desse
valor – cerca de R$ 1,50 por quilo.
No que se refere à segurança alimentar, tem-se recomendado fazer a poda
apical ou “quebra da ponta” dez dias antes da colheita da haste para consumo
dos próprios agricultores. “Essa prática, além de ofertar um alimento nutritivo
para o produtor, permite um maior rendimento das folhas da haste pelo aporte de
nutrientes direcionado para elas e não mais para o ápice, que foi podado”,
explica Madeira ao ressaltar que antes o potencial da ora-pro-nóbis era
subutilizado, já que na Região Sul não havia a tradição de consumir a planta.
O ora-pro-nóbis está sendo estudado no âmbito do projeto “Avaliação
agronômica, caracterização nutricional e estudo da vida útil de hortaliças não
convencionais”, da Embrapa Hortaliças, que busca tornar acessíveis as
informações sobre essas espécies com o intuito de fomentar a produção, o
consumo e a comercialização. Outras hortaliças estudadas são:
almeirão-de-árvore, amaranto, anredera, azedinha, beldroega, bertalha,
capuchinha, cará-do-ar, caruru, fisális, jambu, major-gomes, mangarito,
maxixe-do-reino, muricato, peixinho, serralha, taioba e vinagreira.
O Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) também está vinculado ao
projeto de fomento do cultivo de ora-pro-nóbis no Paraná. O órgão adicionou a
cultura na lista dos produtos financiados pelo Programa Nacional de
Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), permitindo o custeio da
lavoura.
“É um sonho meu que pode se
tornar realidade”
O produtor rural Élcio Rochinski cultiva um hectare de ora-pro-nóbis em Palmeiras (PR) e, em parceria com a empresa de nutrição funcional, aposta na cultura como alternativa ao tabaco.
Como surgiu o interesse pelo
plantio de ora-pro-nóbis?
Na região onde moro, existem poucas possibilidades de cultivos para pequenos agricultores e a grande maioria das famílias com uma pequena parcela de terra trabalha no cultivo do tabaco, pois em pequenas áreas de plantio é a cultura que mais dá resultados. Diante disso, sempre há a busca por novas opções de culturas por parte dos agricultores, já que a cadeia produtiva de tabaco é extenuante e pode trazer outras implicações para o agricultor. Por isso, sempre tive o anseio de poder produzir alguma coisa diferente e o sonho de que também outras pessoas pudessem depender menos dessa cadeia produtiva. Eu nunca tinha ouvido falar sobre ora-pro-nóbis. Fiquei sabendo da possibilidade quando a empresa buscava parceiros para começar a desenvolver lavouras aqui na região. Eu aderi logo aos experimentos para servir de modelo sobre o desenvolvimento da planta na região e para torná-la mais conhecida por aqui.
Quais os principais resultados
observados com o sistema de plantio adensado e colheitas sucessivas?
Depois de um processo de adaptação e conhecimento sobre a planta e sobre seu cultivo, percebi que essa seria uma boa oportunidade para produtores aqui da nossa região. Em comparação com outros sistemas de produção, o plantio adensado possibilitou produção maior em um mesmo espaço de terreno sem prejudicar o desenvolvimento das plantas e também sem dificultar o manejo. Outra coisa que evoluiu muito no cultivo foi a possibilidade de fazer um manejo de podas sucessivas dando agilidade e rendimento na hora da colheita. Além disso, a cada poda, a planta é estimulada a produzir mais, assim o rendimento aumenta gradativamente conforme as plantas vão sendo podadas.
Em média, qual tem sido o
rendimento obtido por área plantada?
Faz um ano e meio que, em minha propriedade, tenho cultivado um hectare de ora-pro-nóbis. Nesta área de plantio, é possível afirmar com clareza que, com o trabalho de podas adequado e com tratos culturais de limpeza e adubação regulares, a média de produção de cada planta a cada corte é algo em torno de 1 quilo de folha verde. Isso significa, após a secagem, algo em torno de 125 gramas de folhas desidratadas. Em média, temos o rendimento de R$ 2,25 reais por planta a cada corte. O rendimento semanal ou mensal depende muito do cronograma de colheita adotado por cada produtor, que varia conforme a disponibilidade de tempo destinado para a cultura.
Para a região, qual a
importância de diversificar renda e cultivo?
No caso da diversificação, embora não pareça, a ideia principal não é aumentar exorbitantemente a lucratividade dos produtores, mas sim trazer segurança com opções de renda diferenciadas, caso alguma cultura venha a não produzir. Além disso, para que a diversificação seja eficiente é preciso que o produtor tenha consciência da sua capacidade de produção para cada cultura. Em resumo, quando há exagero nas proporções de atividades para desenvolver, acaba que nada fica sendo bem cuidado e, assim, não há o rendimento esperado. O primeiro passo para fazer uma boa diversificação na propriedade é estar consciente da sua capacidade de produção e saber dosar tudo que pretende fazer.
Quais são as perspectivas para
o plantio de ora-pro-nóbis?
Há um grande caminho para percorrer, mas o primeiro passo foi dado, com o plantio sendo estudado cada dia mais. Costumo dizer que a planta se garante e mostra um potencial enorme. Há ainda um desafio pela frente, que é torná-la mais conhecida. Penso que, sob esse aspecto, a pesquisa e a indústria terão um papel fundamental na difusão do conhecimento e no estímulo ao consumo dessa planta. Para os produtores que pretendem obter renda em maior escala, o papel da indústria é indispensável. No geral, as perspectivas são as melhores possíveis – a ora-pro-nóbis é um sonho meu e de muitos outros produtores da agricultura familiar como opção de trabalho e renda que pode se tornar realidade. |
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